O Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (Celam), através do Centro de Formação Cebitepal, realizou o quinto webinar de implementação do Sínodo sobre a Sinodalidade, dedicado a aprofundar nas formas adequadas de transparência, prestação de contas e avaliação dentro da vida eclesial.
A jornada, moderada pela comunicadora venezuelana Valentina Guaita Benítez, reuniu a teóloga e religiosa Birgit Weiler HMM, ao sacerdote e teólogo argentino Alejandro Mingo, e à canonista chilena Valeria López Mancini, que abordaram os desafios e oportunidades que apresenta a construção de uma cultura de accountability nas dioceses, paróquias e demais estruturas da Igreja.
O encontro se centrou especialmente nos números 95 a 102 do Documento Final do Sínodo, dedicados à prestação de contas, à avaliação e à transparência como expressões concretas de uma Igreja sinodal.
A transparência como sinal dos tempos
O padre Alejandro Mingo apontou que a demanda por transparência constitui hoje uma exigência social inadiável e um autêntico “sinal dos tempos” que também interpela a Igreja. “A transparência constrói confiança, nos permite sair do território da suspeita para entrar em um território muito mais luminoso”, disse.
Explicou que a transparência favorece melhores processos de gestão porque “o que não se vê, não se avalia, e o que não se avalia, não melhora”. Para o sacerdote argentino, a Igreja não pode permanecer indiferente a essa exigência social: “Não podemos olhar para o outro lado. Deus também nos fala através das exigências e demandas de nossas sociedades”.
O padre Mingo também afirmou que a transparência está intimamente ligada à identidade eclesial e às formas concretas de agir da comunidade crente: “Diga-me como você procede e eu direi quem você é”, expressou, adaptando um conhecido provérbio para enfatizar a importância de revisar os procedimentos e práticas eclesiais.
Avaliar não é fiscalizar, mas discernir juntos
Por sua parte, a religiosa Birgit Weiler disse que a prestação de contas não deve ser entendida como uma fiscalização ou uma busca de culpados, mas como um ejercicio comunitário de discernimento: “Avaliar juntos como irmãos e irmãs na fé a partir das diferentes vocações”.
A religiosa lembrou que a avaliação faz parte da própria missão da Igreja e evocou a experiência de Jesus quando reunia seus discípulos para refletir sobre os frutos da missão. “É parte central da nossa missão fazer uma pausa de vez em quando e avaliar”, apontou.
Segundo Weiler, esse exercício permite identificar onde estão crescendo as sementes do Reino de Deus, mas também onde existem obstáculos ou situações que requerem correção. Como exemplo, citou o episódio bíblico de Pedro e Cornélio narrado nos Atos dos Apóstolos. Lembrou que Pedro teve que explicar ante a comunidade de Jerusalém por que havia acolhido e batizado um pagão, generando um processo de discernimento que transformou tanto o apóstolo quanto a toda a comunidade. “Quando uma avaliação e uma prestação de contas se fazem no Espírito, algo novo pode irromper. Deus nos surpreende com sua novidade”.
O clericalismo, um dos principais obstáculos
Durante o diálogo, os palestrantes concordaram que um dos maiores desafios para avançar em direção a uma cultura de transparência é o clericalismo. O padre Mingo reconheceu que muitas vezes os próprios ministros ordenados se tornam obstáculos para a renovação de processos e procedimentos. “O clericalismo tem sido muito nocivo e continua sendo quando decisões são tomadas de maneira aislada e arbitrária”, alertou.
O sacerdote insistiu na necessidade de compreender o ministério ordenado a partir da lógica do serviço e não do privilégio: “Estamos convidados a uma profunda conversão em nossa mentalidade, em nosso coração e em nossa maneira de proceder”.
No entanto, a Irmã Weiler sublinhou que a superação do clericalismo não depende unicamente de sacerdotes e bispos. “Às vezes nós mesmos, leigos, leigas, religiosas e religiosos alimentamos atitudes clericais quando dizemos: ‘Que o pai decida’, ou ‘como vamos pedir contas?’”, comentou. Por isso, insistiu em que toda a Igreja está chamada a uma conversão que permita viver a autoridade como serviço e favorecer espaços de corresponsabilidade.
Igreja humilde que aprende de todos
Os expositores manifestaram que a prestação de contas supõe reconhecer que todos os membros da Igreja continuam aprendendo a viver o Evangelho.
Weiler lembrou as palavras de Santo Agostinho: “Para vocês sou bispo; com vocês sou cristão”, uma frase que, segundo explicou, expressa a igualdade de todos os batizados. Também compartilhou o testemunho de um bispo que, durante o recente consistório convocado pelo Papa Leão XIV, relatou como se submete voluntariamente a processos periódicos de avaliação junto a representantes de distintas vocações presentes em sua diocese.
“Uma Igreja sinodal é também uma Igreja humilde, onde todos reconhecem a necessidade de continuar aprendendo”, sustentou.
Estruturas para a participação e a corresponsabilidade
Os palestrantes apontaram que a sinodalidade não pode ficar apenas nas boas intenções, mas que precisa de estruturas concretas que tornem possível a participação. O padre Mingo explicou que o Documento Final do Sínodo insiste na importância de gerar procedimentos onde ministérios e carismas possam discernir, deliberar e decidir de maneira colegiada. “A decisão não é de um só nem de alguns em particular”, indicou.
Além disso, ressaltou que a prestação de contas implica explicar as razões das decisões adotadas e oferecer informações claras sobre a gestão pastoral, administrativa e econômica: “A avaliação é diante de Deus e diante de todo o povo de Deus”.
Por sua parte, a Irmã Weiler sustentou que essas práticas ajudam a encarnar a fé e a transformar progressivamente as formas de pensar e agir. “Precisamos que a prestação de contas se torne um hábito, uma prática estável da vida eclesial”, apontou.
O Chile compartilha uma experiência: a prestação de contas anual
A experiência pastoral do webinar ficou a cargo de Valeria López Mancini, secretária geral adjunta da Conferência Episcopal do Chile, que apresentou a prática das prestações de contas anuais implementadas por diversas dioceses chilenas. A canonista explicou que esta iniciativa responde diretamente ao convite do Documento Final do Sínodo para desenvolver novas formas de prestação de contas adaptadas a cada contexto cultural: “A prestação de contas anual demonstrou ser um método eficaz para prestar contas à comunidade”.
Ao contrário do modelo tradicional centrado em informar unicamente ao superior eclesiástico, esta modalidade busca que o bispo informe publicamente a toda a comunidade sobre a gestão econômica e pastoral da diocese. Segundo López Mancini, os objetivos são três: fortalecer a transparência, promover a sinodalidade e facilitar a avaliação pastoral.
Entre as experiências apresentadas, ele enfatizou a Arquidiocese de La Serena, que este ano realizou sua oitava conta pública anual, e a diocese de Villarrica, que desenvolveu recentemente sua primeira experiência. Em ambos os casos participaram não apenas membros da Igreja, mas também autoridades civis, organizações sociais, representantes da vida religiosa e cidadãos interessados. As apresentações incluíram balanços financeiros, programas pastorais, estatísticas sacramentais, projetos educativos, atendimento a migrantes, funcionamento de restaurantes solidários e outros aspectos relevantes da vida diocesana.
López Mancini anunciou ainda que a Conferência Episcopal do Chile realizará pela primeira vez uma conta pública institucional sobre sua gestão pastoral e econômica correspondente ao ano de 2025. A atividade está prevista para o próximo 9 de setembro e contará com a participação de colaboradores, benfeitores, representantes de congregações religiosas, autoridades civis e diversos atores vinculados à vida eclesial. Segundo explicou, a iniciativa quer reforçar o compromisso da Igreja chilena com a transparência e a prestação de contas.
Prática que fortalece a comunhão
Ao responder perguntas dos participantes, os expositores concordaram que as experiências de prestação de contas foram recebidas positivamente pelas comunidades. Valeria López apontou que essas iniciativas contribuem para fortalecer a confiança e permitem compreender melhor o destino dos recursos econômicos: “Quando podemos mostrar todo o trabalho da Igreja, resulta fácil compreender como esses recursos são utilizados e percebe-se a coerência entre os fundos recebidos e a missão pastoral”.
A religiosa Birgit Weiler acrescentou que a prestação de contas favorece a corresponsabilidade porque ajuda a que os fiéis se sintam parte ativa da vida da Igreja: “Uma boa prestação de contas cria comunhão. Sem comunicação não há comunhão”.
O padre Alejandro Mingo concordou que esses processos estão produzindo mudanças positivas em numerosas comunidades: “São passos possíveis na direção correta. Estão renovando-nos estruturalmente e fortalecendo nossa vida eclesial”.
Mudança de paradigma que exige conversão
Perto do final do encontro, os participantes reconheceram que a implementação de essas práticas pode gerar resistências. López Mancini lembrou que a transformação começa pela conversão pessoal e comunitária antes de chegar aos procedimentos.
Por sua parte, o padre Mingo citou o historiador jesuíta John O’Malley para explicar que toda mudança encontra oposição precisamente porque desafia estruturas estabelecidas. “O grau de resistência que uma mudança suscita está em proporção direta ao desafio que representa para o sistema vigente”, lembrou.
Apesar de dificuldades, os palestrantes manifestaram que a transparência, a evaliação e a prestação de contas constituem caminhos necessários para construir uma Igreja mais crível, corresponsável e fiel ao espírito do processo sinodal impulsionado pelo Papa Francisco e continuado pelo papa Leão XIV.
“Quando começamos a praticar coisas boas que antes não fazíamos, essas mesmas práticas terminam nos transformando”, concluiu Weiler, resumindo o espírito de um encontro que convidou a Igreja latino-americana a dar novos passos rumo a uma cultura de comunhão, participação e missão.
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