A partir da minha realidade acadêmica no Brasil, de dois estudos como o do Padre Mário de França Miranda, acredito que o Reino de Deus irrompeu na história por meio de dois gestos e palavras de Jesus, como lembra Jon Sobrino, e seu amor incondicional pelos marginalizados. Da autocomunicação divina, compreendemos que a práxis de Jesus conduz à salvação integral. Tal compreensão dialoga com o pensamento de José María Castillo, que entende o Reino de Deus em suas dimensões ética, antropocêntrica e histórica. O Reino se realiza no mundo por meio da promoção da justiça, do bem-estar social e da defesa incondicional dos direitos humanos, especialmente dos mais vulneráveis, apresentando-se como uma proposta de liberdade prática e humanizadora da vida concreta. Assim, podemos ampliar a perspectiva da Segunda Galileia, que abre tanto a dimensão espiritual quanto as transformações sociais, econômicas e políticas necessárias para superar as estruturas de opressão e injustiça que impedem a vida plena na história.
Aliás, Rudolf Schnackenburg oferece-nos uma abordagem teológico-exegética e escatológica rigorosa, estabelecendo uma distinção entre o "Reino" (Baselia como soberania e domínio ativo de Deus) e o "Reinado" (uma manifestação ou o âmbito onde esse domínio é exercido). Em sua análise, o Reino é essencialmente um ato teórico: a soberania salvífica de Deus que se manifestou decisivamente no ministério de Jesus Cristo (presente), mas cuja plenitude e consumação definitiva só ocorrerão em dois tempos (futuro). Para Yves-Marie Blanchard, é preciso enfatizar a relação intrínseca entre o anúncio da Boa Nova (Evangelho) e a mensagem do Reino na tradição bíblico-evangélica. O Reino de Deus é entendido como o núcleo da mensagem e da missão de Jesus nos Evangelhos. Trata-se de revelar a vontade de Deus para o mundo, exigindo um diálogo pessoal e comunitário (metanoia) para que a humanidade possa abraçar esta nova ordem de vida inaugurada pela oração e pelas conquistas de Jesus.
Por fim, o nosso professor Juan Alberto Casas Ramírez propõe uma análise do Reino de Deus a partir das suas implicações sociopolíticas e da vida pública de Jesus. Em vez de ser um conceito puramente espiritualista ou, por outro lado, uma ideologia partidária humana, o Reino funciona como um princípio crítico contra os poderes políticos do mundo. Partindo do projeto do Reino, a Práxis de Jesus oferece critérios éticos para desmascarar a violência e a injustiça, propondo novas formas de convivência e resolução pacífica para os conflitos sociais e políticos contemporâneos.
Pessoalmente, penso que a famosa síntese acerca do Reino(“já e ainda não”) também poderia ser ampliada: “já e ainda mais”. Essa é a nossa fé e a nossa esperança!